sábado, 11 de outubro de 2014

Sobre inacabamento e continuidade...

Sempre que começo a me interessar por um determinado assunto, já sei que é meu filtro perceptivo me indicando o caminho de um novo processo de criação ou talvez, novos estímulos dando continuidade aos processos inacabados.
Recorro à Cecília Almeida Salles e seu livro O gesto inacabado, que sempre me sussurra sugestões e sublinha repetidamente questões relevantes sobre os processos de criação artística, me acalma reproduzindo as falas de artistas, me renova o frescor da descoberta.
Por um pouco mais de dois anos me debrucei sobre a obra de um artista alemão incrível que iluminou minha imaginação e revelou em meu corpo a potência do inacabado. Hans Bellmer me alimentou imagética e conceitualmente e me fez mergulhar em um universo pessoalmente estranho, por vezes difícil de acessar.
Após percorrer os corpos inanimados de suas bonecas, me encontro, agora, flertando com um corpo de maiores proporções que vive, respira e se move como eu. Persigo obsessivamente as árvores que encontro pelo caminho, como se a qualquer momento elas fossem criar pernas e fugir. O momento da relação é aquele do encantamento, da descoberta do desconhecido, do tatear cuidadosamente, da gentileza com essa que, no momento, tem dado asas à continuidade de meu inacabamento.
Remexendo em álbuns de fotografias antigas, descobri que minha curiosidade e admiração pelas árvores já vem de longa data. Pelos lugares que percorri, elas sempre estiveram lá puxando meu olhar, me atraindo, me chamando. Finalmente atendi e...  vamos ver como continua essa conversa.

“O inacabado se impõe, a ordem é incompleta e mutável. É um movimento em potencial em direção à completude ou algo como a incerteza de futuro e a sugestão de inúmeras possibilidades de prolongamento. O inacabado incita à exploração, à descoberta.” (Paola Berenstein Jacques)


Referências Bibliográficas

JACQUES, Paola Berenstein. Estética da ginga: a arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Eric Kellerman - um olhar não-erótico para o corpo feminino nu.

Estou sempre atenta para imagens de corpos que me tragam um certo estranhamento e continuem a alimentar meus processos criativos. Me deparo constantemente com pintores, escultores e fotógrafos, entre outros artistas, que 'me pegam de jeito'. Meus amigos que sabem das minhas preferências, vivem me indicando trabalhos nem sempre 'estranhos', mas que sugerem outras maneiras de perceber e visualizar o corpo, contribuindo muito em minhas pesquisas. Essa semana minha irmã Adriana me enviou uma fotografia de Eric Kellerman, e eu fui curiosamente tentar saber um pouco mais dele...

 The Box

Eric Kellerman é um britânico que viveu perto de Nijmegenna Holanda por um tempo muito longo. Em 2008, ele aposentou-se da academia para passar mais tempo na fotografia. Especializado no nu, ele trabalha quase que inteiramente no estúdio com uma equipe regular de colaboradores do sexo feminino, a maioria dos quais tem um interesse sério em movimento (dança, acrobacia, yoga, artes marciais). Às vezes, quando ninguém está disponível ele fotografa legumes e frutas por desespero.
Kellerman considera que seu trabalho seja distante, abstrato, melancólico, 'anti-erótico’, apesar de seu assunto. Ele enfatiza linhas, formas geométricas, texturas, movimento implícito e, acima de tudo, claro-escuro. Ele gosta de criar ambiguidade em suas fotos, de modo que o espectador, por vezes, não saiba para qual parte do corpo está olhando. Desta forma, ele tenta libertar o corpo feminino das suas associações convencionais.

The Box

Striped Light

The Averted Gaze I

The Averted Gaze II

Enfatizando diferentes ângulos do corpo, destacando e fragmentando partes dele pela luz, as fotografias de Eric Kellerman, trazem o corpo feminino em formas inusitadas, mas principalmente destacam a beleza de determinadas partes do corpo, mesmo quando não as reconhecemos de imediato. A fragmentação aguça a imaginação para o que está oculto e ao tentar desvendar as imagens, vemos sempre mais do que nos é permitido ver.

Todas as imagens e informações retiradas do site do artista:

domingo, 29 de junho de 2014

Os desenhos de Hans Bellmer

A obra de Hans Bellmer é composta pelas bonecas ‘esculpidas’ e fotografias provenientes delas, além de uma produção textual e gráfica extremamente elaborada. Para ele, interessava as possibilidades provenientes de uma relação mais imediata entre imaginação e realidade do que a distinção entre os meios de expressão.

Ao analisar as imagens criadas por Bellmer, percebe-se que a boneca em sua forma plástica consistia em um objeto dotado de infinitas possibilidades de transformação, porém, desenhá-las possibilitou a criação de posturas corporais ‘simultâneas’ que a versão plástica só permitia acontecer de maneira ‘sucessiva’. Percebe-se, principalmente nos desenhos, como um corpo delineado pelo desejo se sobrepõe a um corpo ‘natural’ esgarçando suas possibilidades expressivas.

Hans Bellmer. Ilustração para L’histoire del’oeil 
                           de Georges Bataille, 1947.                                             

sábado, 28 de junho de 2014

E o processo continua...



Hans Bellmer. La Poupée, 1936

O artista vive de olhos, ouvidos e poros abertos ao mundo, selecionando e reelaborando informações apreendidas e que, possam de alguma forma, estar presentes não só em uma obra, mas em seu percurso como criador. Sendo assim, “o artista recolhe e acolhe tudo o que, de algum modo, lhe atrai” (Salles, 2004), mesmo que momentaneamente não saiba o porquê. Sendo a percepção o elemento primeiro na obtenção de informações e futuramente na produção de conhecimento, o modo pelo qual o artista compreende e apreende o mundo à sua volta passa por um filtro perceptivo, único e pessoal.
O meu filtro perceptivo para o considerado estranho, incomum, temporariamente adormecido após a aventura de uma defesa de mestrado, abriu os olhos renovado e descansado para espreguiçar e voltar à ativa, ao trabalho.
Me deparo com leituras sobre processos de criação que se confundem com meus fazeres diários, meus processos de/em construção. Volto ao artista que acompanhou nos últimos anos meus fazeres criativos, pressionando meus pensamentos, transformando meu olhar sobre o corpo, o gesto, a imagem, a dança... a vida.
Pesquisar a obra de um artista é praticamente um mergulho na superfície. Ficamos à margem, recolhendo indícios, pistas de seu percurso criativo, com o intuito de aproximar-nos da realidade própria do seu trabalho. Hans Bellmer me fez conhecer um universo singular, regido por leis próprias, criadas em um processo minucioso e íntimo entre o artista e sua obra no percurso de seu projeto poético. Sugeriu-me outras maneiras de perceber o mundo através de um filtro que passa pela imaginação, afastando-se das representações fixas que reduzem o olhar a limites e medidas. Por fim, desnudou-me de conceitos pré-concebidos, revelando meus desejos mais íntimos, aqueles que escondemos, mesmo nos sonhos.
Retomar um processo inacabado é transitar por tendências e acasos, investir na potência de sua continuidade...

"No romance ‘Frankenstein’ de Mary Shelley, a criatura, na sua condição primeva, era puro monstro e, a partir da interação com o mundo dos homens, teve a chance de se humanizar. Por meio do letramento, sua bestialidade foi suplantada, permitindo alcançar o senso de si e vislumbrar que havia um lugar para seu ser (humano). Frankenstein é o símbolo de uma sociedade diversa, cujos membros disputavam lugares sem, contudo, ter a certeza do lugar a que pertenciam. As incertezas e inseguranças se estabeleciam por não haver mais um lugar existente, pronto, à espera de cada um, por mais que alguns ainda acreditassem na presença dele. Cada indivíduo enfrentava o desafio de construir seu próprio lugar no mundo e os próprios valores." (MALTA, 2009).


Referências Bibliográficas

SALLES, Cecília Almeida. Gesto Inacabado – Processo de criação artística. Segunda edição. São Paulo: Annablumme/FAPESP: 2004.

MALTA, Marize. Corpos Estranhos: Frankenstein e o objeto eclético. In: Corpo: identidades, memórias, subjetividades. Org. Monica Pimenta Velloso, Joëlle Rouchou e Cláudia Oliveira. Rio de Janeiro: Mauad X/FAPERJ, 2009.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Exposição Virtual e entrevista no ctrl+alt+dança

A série de fotografias exibidas na Galeria Virtual do Ctrl+alt+dança, contou com uma entrevista, na verdade, um bate papo com Andre Bern sobre a pesquisa que teve como principal estímulo a representação do corpo feminino na obra do artista alemão Han Bellmer. Nesse bate papo são abordados principalmente os procedimentos utilizados na construção das imagens do corpo fragmentado no diálogo pretendido entre dança e fotografia.







Confira abaixo o link para visualização da entrevista, além do texto e das fotografias:




Exposição virtual no ctrl+alt+dança!

De 07 a 20 de maio estarão expostas na Galeria Virtual do Ctrl+alt+dança a série intitulada 'Estudo para Androginia', parte da pesquisa sobre o tema da fragmentação corporal, desenvolvido na Dissertação de mestrado 'A construção de um corpo aos pedaços'.


Além das fotografias, a exibição conta ainda com um texto e uma entrevista.

http://ctrlaltdanca.com/galeria/androginia/

terça-feira, 4 de março de 2014

Defesa do mestrado!

No dia 21 de fevereiro do ano corrente fechei um ciclo. Depois de dois anos debruçada sobre o tema da fragmentação corporal, defendi minha dissertação de mestrado intitulada "A construção de um corpo aos pedaços".




A Instalação

A proposta de finalização deste trabalho tratou-se de um espaço de exposição de algumas experiências resultantes neste processo criativo que foram descritas separadamente no trabalho escrito e reunidas em uma espécie de espaço instalativo, onde o tema desenvolvido estava apresentado nos diferentes suportes nos quais foi experienciado. O corpo fragmentado foi evidenciado em imagens impressas e projetadas e também em sua presença física. Apresentados simultaneamente, esses fragmentos poéticos compartilharam um espaço recortado propondo ao espectador um olhar fragmentado pela impossibilidade de apreensão visual de um todo. O corpo que se quis construir desde o início do processo foi continuamente destruído, reconstruído, decomposto, recomposto e se apresentou fragmentado, quer por autonomia ou dissociação. 
A partir da ideia de autonomia, as partes do corpo são tratadas como estruturas íntegras, independentes de um todo. Com a ideia de dissociação, o corpo é reorganizado em sua estrutura, e suas partes podem ser suprimidas, multiplicadas e deslocadas, afastando-o da imagem do corpo humano como normalmente o conhecemos. Esses dois modos de compreender a fragmentação foram percebidos nos trabalhos de alguns artistas, que, por exemplo, dedicam maior atenção às partes, aproximando e detalhando pedaços do corpo, ou enfocam a possibilidade de alteração da figura humana, em processos de transformação de sua estrutura, trazendo à tona imagens de corpos ilusórios, fantásticos. 

Do processo


Por não se tratar somente da criação de uma obra, mas da composição de um trabalho acadêmico experiência prática e reflexão teórica caminharam juntas. No decorrer desses dois anos, foram realizadas diversas experimentações que indicaram um caminho onde as ferramentas de composição das linguagens cênicas e visuais poderiam se entrelaçar e possibilitar um diálogo mais profundo, a fim de estabelecer uma relação verdadeiramente interdisciplinar entre as duas áreas postas em questão nesse trabalho, a Dança e as Artes Visuais. Perseguiu-se o tema da fragmentação corporal, alimentado por inúmeras referências imagéticas e conceituais, sendo a principal, a obra do artista alemão Hans Bellmer. Além dele, contou-se com uma vasta iconografia de trabalhos tanto Surrealistas quanto Contemporâneos, tendo em comum o fato de constituírem obras onde o corpo era apresentado fragmentado, distante de uma configuração reconhecível de um corpo humano.


Algumas experiências realizadas neste processo criativo.

Acredito que o processo criativo é acompanhado de um grande exercício de escuta e observação no qual o artista deve estar atento às escolhas que a própria obra faz e lhe impõe. Ao artista não resta apenas obedecer. Há que abrir o canal sensível de entendimento e comunhão com a obra a fim de deixá-la vir à tona a partir do meio mais propício para o seu transbordamento. Pois a arte, acontece nesses entre-lugares, onde as forças se atraem, se repelem e por vezes se esbarram, criando cacos de possibilidades que se arremessam sem direção carregando a potencialidade de sua concretização.

Apesar do grande leque de possibilidades que se abriu, entendo que o tema não se esgotou, por considerar que alguns resultados das experiências apontaram na direção de possíveis desdobramentos, não realizados. Por isso não se trata de um produto final, mas provisório. Inacabado como acredita-se o próprio corpo...