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terça-feira, 15 de julho de 2014

Eric Kellerman - um olhar não-erótico para o corpo feminino nu.

Estou sempre atenta para imagens de corpos que me tragam um certo estranhamento e continuem a alimentar meus processos criativos. Me deparo constantemente com pintores, escultores e fotógrafos, entre outros artistas, que 'me pegam de jeito'. Meus amigos que sabem das minhas preferências, vivem me indicando trabalhos nem sempre 'estranhos', mas que sugerem outras maneiras de perceber e visualizar o corpo, contribuindo muito em minhas pesquisas. Essa semana minha irmã Adriana me enviou uma fotografia de Eric Kellerman, e eu fui curiosamente tentar saber um pouco mais dele...

 The Box

Eric Kellerman é um britânico que viveu perto de Nijmegenna Holanda por um tempo muito longo. Em 2008, ele aposentou-se da academia para passar mais tempo na fotografia. Especializado no nu, ele trabalha quase que inteiramente no estúdio com uma equipe regular de colaboradores do sexo feminino, a maioria dos quais tem um interesse sério em movimento (dança, acrobacia, yoga, artes marciais). Às vezes, quando ninguém está disponível ele fotografa legumes e frutas por desespero.
Kellerman considera que seu trabalho seja distante, abstrato, melancólico, 'anti-erótico’, apesar de seu assunto. Ele enfatiza linhas, formas geométricas, texturas, movimento implícito e, acima de tudo, claro-escuro. Ele gosta de criar ambiguidade em suas fotos, de modo que o espectador, por vezes, não saiba para qual parte do corpo está olhando. Desta forma, ele tenta libertar o corpo feminino das suas associações convencionais.

The Box

Striped Light

The Averted Gaze I

The Averted Gaze II

Enfatizando diferentes ângulos do corpo, destacando e fragmentando partes dele pela luz, as fotografias de Eric Kellerman, trazem o corpo feminino em formas inusitadas, mas principalmente destacam a beleza de determinadas partes do corpo, mesmo quando não as reconhecemos de imediato. A fragmentação aguça a imaginação para o que está oculto e ao tentar desvendar as imagens, vemos sempre mais do que nos é permitido ver.

Todas as imagens e informações retiradas do site do artista:

terça-feira, 13 de maio de 2014

Exposição virtual no ctrl+alt+dança!

De 07 a 20 de maio estarão expostas na Galeria Virtual do Ctrl+alt+dança a série intitulada 'Estudo para Androginia', parte da pesquisa sobre o tema da fragmentação corporal, desenvolvido na Dissertação de mestrado 'A construção de um corpo aos pedaços'.


Além das fotografias, a exibição conta ainda com um texto e uma entrevista.

http://ctrlaltdanca.com/galeria/androginia/

terça-feira, 4 de março de 2014

Defesa do mestrado!

No dia 21 de fevereiro do ano corrente fechei um ciclo. Depois de dois anos debruçada sobre o tema da fragmentação corporal, defendi minha dissertação de mestrado intitulada "A construção de um corpo aos pedaços".




A Instalação

A proposta de finalização deste trabalho tratou-se de um espaço de exposição de algumas experiências resultantes neste processo criativo que foram descritas separadamente no trabalho escrito e reunidas em uma espécie de espaço instalativo, onde o tema desenvolvido estava apresentado nos diferentes suportes nos quais foi experienciado. O corpo fragmentado foi evidenciado em imagens impressas e projetadas e também em sua presença física. Apresentados simultaneamente, esses fragmentos poéticos compartilharam um espaço recortado propondo ao espectador um olhar fragmentado pela impossibilidade de apreensão visual de um todo. O corpo que se quis construir desde o início do processo foi continuamente destruído, reconstruído, decomposto, recomposto e se apresentou fragmentado, quer por autonomia ou dissociação. 
A partir da ideia de autonomia, as partes do corpo são tratadas como estruturas íntegras, independentes de um todo. Com a ideia de dissociação, o corpo é reorganizado em sua estrutura, e suas partes podem ser suprimidas, multiplicadas e deslocadas, afastando-o da imagem do corpo humano como normalmente o conhecemos. Esses dois modos de compreender a fragmentação foram percebidos nos trabalhos de alguns artistas, que, por exemplo, dedicam maior atenção às partes, aproximando e detalhando pedaços do corpo, ou enfocam a possibilidade de alteração da figura humana, em processos de transformação de sua estrutura, trazendo à tona imagens de corpos ilusórios, fantásticos. 

Do processo


Por não se tratar somente da criação de uma obra, mas da composição de um trabalho acadêmico experiência prática e reflexão teórica caminharam juntas. No decorrer desses dois anos, foram realizadas diversas experimentações que indicaram um caminho onde as ferramentas de composição das linguagens cênicas e visuais poderiam se entrelaçar e possibilitar um diálogo mais profundo, a fim de estabelecer uma relação verdadeiramente interdisciplinar entre as duas áreas postas em questão nesse trabalho, a Dança e as Artes Visuais. Perseguiu-se o tema da fragmentação corporal, alimentado por inúmeras referências imagéticas e conceituais, sendo a principal, a obra do artista alemão Hans Bellmer. Além dele, contou-se com uma vasta iconografia de trabalhos tanto Surrealistas quanto Contemporâneos, tendo em comum o fato de constituírem obras onde o corpo era apresentado fragmentado, distante de uma configuração reconhecível de um corpo humano.


Algumas experiências realizadas neste processo criativo.

Acredito que o processo criativo é acompanhado de um grande exercício de escuta e observação no qual o artista deve estar atento às escolhas que a própria obra faz e lhe impõe. Ao artista não resta apenas obedecer. Há que abrir o canal sensível de entendimento e comunhão com a obra a fim de deixá-la vir à tona a partir do meio mais propício para o seu transbordamento. Pois a arte, acontece nesses entre-lugares, onde as forças se atraem, se repelem e por vezes se esbarram, criando cacos de possibilidades que se arremessam sem direção carregando a potencialidade de sua concretização.

Apesar do grande leque de possibilidades que se abriu, entendo que o tema não se esgotou, por considerar que alguns resultados das experiências apontaram na direção de possíveis desdobramentos, não realizados. Por isso não se trata de um produto final, mas provisório. Inacabado como acredita-se o próprio corpo...




quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Apresentação na Mostra Mais 2013!






Entre os dias 8 e 19 de julho realizou-se a Mostra Mais 2013. Evento realizado pela Escola de Comunicação da UFRJ e pelo Curso de Direção Teatral da mesma. A Mostra, composta de encenações  e seminário de pesquisas da direção teatral, dedicou um dia para performances dos cursos e projetos de dança da UFRJ. Tratou-se da primeira apresentação do Projeto Corpo Estranho com o trecho coreográfico intitulado "Esculturas Dinâmicas". 
O processo de construção deste trecho foi, inicialmente, através de um jogo proposto ao grupo de esconder e revelar as partes do corpo onde os mesmos tinham que estar em contato num entrelaçamento contínuo. Neste jogo, um corpo propunha uma forma e os outros se uniam à ele prontamente com o intuito de preencher possíveis espaços vazios gerados pelo primeiro corpo. Vazios, túneis, espaços de encaixe e complementação, geravam um outro corpo, único, escultural, anatomicamente fantástico, revelado pela união de três corpos. O diálogo com as imagens projetadas começou com a captura de imagens de partes do corpo de maneira isolada: mãos, pés, olhos, entre outras. Elegeu-se primeiramente as mãos, por sua força expressiva, sua presença nas ações mais simples do ser humano como levar o alimento à boca, enxugar o suor da testa, segurar as mãos do outro, etc., mas também por sua habilidade em realizar movimentos de alta complexidade e coordenação motora fina. As imagens geradas primeiramente por movimentos improvisados foram editadas pela designer Juliana Prado: cortadas, multiplicadas e posteriormente projetadas, em uma superfície plana (parede) e também nos corpos dos intérpretes-colaboradores sobrepostos a ela: Diego Carvalho, Mery Horta e Taísa Magno. 




No trecho apresentado, os três corpos compõem uma espécie de escultura dinâmica, misturando suas partes em uma estrutura única que se mantém estática por alguns momentos, mantendo apenas o fluxo de movimentos das mãos que dialogam com a imagem das mãos projetadas. Esse corpo escultórico desloca-se lentamente por um espaço reduzido compondo outras configurações formais, rearranjando seus pedaços em um caminho semelhante aos anagramas do corpo de Hans Bellmer que intercambiavam as partes de suas bonecas. As imagens das mãos tateiam, deslizam, exploram esse território corpóreo revolvendo-o e misturando-se a ele em um diálogo imaginário entre mãos reais e virtuais. 
Conta-se ainda com a imagem sombra do corpo escultórico. “A imagem fugaz da sombra, a deformar implacavelmente a silhueta humana...” (Moraes, 2002, p.97) As sombras, mas principalmente a desconfiança sobre sua natureza, habitou o imaginário artístico entre o final do século XIX e meados do século XX. Em suas formas instáveis e efêmeras, as silhuetas de corpos e objetos exploravam um universo sombrio, misterioso causando desconfiança sobre um improvável desgarrar autônomo da sombra com relação a sua fonte originária. Nesta experiência, a sombra surge como uma silhueta descarnada, em diálogo com o corpo físico e suas imagens projetadas, promovendo diferentes camadas de visualização a partir de uma mesma origem, o corpo.

Referência Bibliográfica

MORAES, Eliane Robert. O corpo impossível: a decomposição da figura humana de Lautréamont à Bataille, São Paulo: Iluminuras/FAPESP. 2002

sexta-feira, 12 de abril de 2013

As Bonecas de Hans Bellmer



Entre os artistas europeus, que nas primeiras décadas do século XX voltaram-se para o projeto de decomposição da figura, destaca-se em particular o nome de Hans Bellmer. Nos anos de 1930, Hans Bellmer criou uma série de bonecas com partes articuladas que podiam ser desmembradas e reagrupadas de diversas maneiras. O corpo humano tal qual o conhecemos perdia sua estrutura íntegra, podendo ser estruturado, entre outras combinações, sem o tronco ou com mais de um par de pernas. Foi em 1934 que o trabalho do artista alemão apareceu pela primeira vez na França, com a publicação de uma série de fotos na revista surrealista Minotaure, cujo título era ‘Variações sobre a montagem de uma menina desarticulada’.


Hans Bellmer "Poupée": Variations sur le montage d'une mineure articulée", in Minotaure 6, 1934

Hans Bellmer construiu a sua primeira boneca na mesma época que Hitler chegou ao poder. A boneca construída à imagem de uma menina adolescente consistia em uma resposta crítica ao autoritarismo do Estado Nazista. A primeira boneca possuía um tronco rígido e membros intercambiáveis que foram combinados incessantemente e fotografados em diferentes ambientes. O reconhecimento de um corpo supostamente real no que diz respeito a sua estrutura corpórea e ao mesmo tempo artificial, na maneira como essa estrutura era organizada, dispostos em ambientes cotidianos realistas provocavam um jogo de ambivalências, eliminando as fronteiras distintas entre real e artificial, mulher e criança, vida e morte, prazer e dor entre outros.

Hans Bellmer, "La Poupée" 1936


As bonecas consistiam em esculturas tridimensionais, mas Bellmer escolheu a fotografia como meio principal de reprodução. A fotografia trazia a imagem da boneca exatamente de acordo com o ponto de vista do artista e possibilitava uma visão mais voyeurística por parte do espectador.
As imagens propostas por Bellmer traziam em seu contexto referências temporais, cenas que traziam a impressão de serem desfechos de acontecimentos prévios ou cenas de ‘um provável próximo capítulo’. As fotografias como superfícies estáticas traziam em si uma potencialidade dinâmica, transformadora. Como num sonho, o efeito desejado era o de revelar o inconsciente e desestabilizar as expectativas. “Não se tratava apenas de questionar a ‘realidade’, mas também de questionar a forma pela qual ela era normalmente representada”. (Briony, Fer, 1998, p. 172)


Hans Bellmer, "La Poupée" 1936

Hans Bellmer, "La Poupée" 1936





















“A boneca representava o oposto do corpo geometrizado, confinado numa forma definitiva, circunscrito a limites e medidas. Num processo permanente de permutação dos membros e órgãos, manipulando-os em complexas combinações, os devaneios anatômicos de Bellmer buscavam fazer coincidir a imagem real e a imagem virtual de um corpo, reunindo numa só figura o resultado da percepção imediata do olhar e as reinvenções da imaginação. Ao afirmar a primazia do corpo do desejo sobre o corpo natural, o artista colocava em cena imagens nas quais os diversos membros e órgãos tornavam-se intercambiáveis, conferindo autonomia aos pedaços, para que cada qual pudesse, segundo suas palavras, ‘viver triunfalmente sua própria vida’”. (MORAES, 2006, p.26)




Referências Bibliográficas

FER, Briony; BATCHELOR, David; WOOD, Paul. Realismo, Racionalismo, Surrealismo: A arte no entre - guerras. São Paulo: Cosac & Naify, 1998.

LICHTENSTEIN, Therese. Behind close doors: the art of Hans Bellmer. London, England: University of California press, 2001.

MORAES, Eliane Robert. Os devaneios anatômicos de Hans Bellmer. in: GREINER, Christine, Org.; AMORIM, Claudia, Org.; Leituras do sexo, São Paulo: Annablume, 2006.

MORAES, Eliane Robert. O corpo impossível: a decomposição da figura humana de Lautréamont à Bataille, São Paulo: Iluminuras/FAPESP. 2002

WEBB, Peter, SHORT, Robert. Death, desire and the doll: the life and art of Hans Bellmer. Solar Books, 2006.

Artigo de Sue Taylor - Instituto de Arte de Chicago:
http://www.artic.edu/reynolds/essays/taylor.php





quarta-feira, 10 de abril de 2013

Um processo aos pedaços - o início


Desde que me formei no curso de bacharelado em dança da UFRJ, venho pesquisando sobre o que seria a deformação da forma corporal e assuntos afins. A fragmentação da figura humana, que também considero inserida dentro dessa pesquisa sobre deformação, tem estimulado bastante os meus últimos trabalhos coreográficos. Este último, até o momento intitulado “Pedaços” é fruto de algumas reflexões realizadas por alguns artistas plásticos, escritores e pensadores do modernismo, em especial, Georges Bataille e Hans Bellmer. Nomes geralmente associados ao movimento surrealista, apesar de ambos serem dotados de especificidades únicas para serem confinadas em um movimento da arte moderna. A pesquisa, assim, transita por um imaginário fantástico e se apóia em questões como a fragmentação corporal, a deformação, a mutilação e a dissociação das partes do corpo.

Entrei em contato com o pensamento de Georges Bataille e com a obra de Hans Bellmer a partir do livro “O corpo Impossível” de Eliane Robert Moraes. No livro, Eliane faz um estudo aprofundado do processo de decomposição da figura humana pelos modernistas com atenção especial ao pensamento de Bataille. Apesar de intensa identificação com o tema, ainda não sabia qual seria o fio condutor da pesquisa e só o encontrei quando após uma série de leituras fui para a ‘prática’. Até então, não conseguia definir o que estava pesquisando, mas conseguia por o projeto em prática. A partir daí as coisas foram ficando mais claras e um possível tema foi sendo recortado.

É importante atentar para “o instante sensível e espontâneo em que uma possível obra é indiciada. Pode ser tudo, mas ainda não é nada, só uma possibilidade. (...) A percepção artística acontece nesse instante de transformação singular que aponta para uma possível futura obra” (Salles, 2001, p.97)

O processo foi de intensa experimentação. Eu experimentava, filmava, observava e refletia. Depois de alguns meses nessa atividade quis começar a fechar algumas idéias e seqüências. Eu sempre fui muito ligada à forma do movimento corporal e o natural para mim seria construir o trabalho a partir de seqüências de movimentos militarmente precisas ainda que deformadas. Mas não era possível. O fluxo de movimentos não se permitia confinar em formas exatas e a crise se instaurou.

Continuei experimentando até que algumas idéias foram ficando recorrentes e o trabalho foi se moldando a partir de um roteiro de dinâmicas corporais, onde algumas formas foram responsáveis pela costura do todo a fim de não torná-lo apenas um improviso. Ao invés de seqüências coreográficas, uma trajetória linear reta dividida por variações de dinâmica corporal, pontuada por formas geometricamente definidas/deformadas que buscam estados corpóreos provenientes de variações na intensidade da força aplicada ao movimento. Pedaços de corpo que se escondem e reaparecem transitando entre a falta e o excesso. Continua...

MORAES, Eliane Robert. O Corpo Impossível: A decomposição da figura humana de Lautréamont à Bataille, São Paulo: Iluminuras/FAPESP. 2002

SALLES, Cecília Almeida. Gesto Inacabado – Processo de criação artística. Segunda edição. São Paulo: Annablumme/FAPESP: 2004.


"Pedaços", 2010 Foto de Fabiana Amaral