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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Apresentação na Mostra Mais 2013!






Entre os dias 8 e 19 de julho realizou-se a Mostra Mais 2013. Evento realizado pela Escola de Comunicação da UFRJ e pelo Curso de Direção Teatral da mesma. A Mostra, composta de encenações  e seminário de pesquisas da direção teatral, dedicou um dia para performances dos cursos e projetos de dança da UFRJ. Tratou-se da primeira apresentação do Projeto Corpo Estranho com o trecho coreográfico intitulado "Esculturas Dinâmicas". 
O processo de construção deste trecho foi, inicialmente, através de um jogo proposto ao grupo de esconder e revelar as partes do corpo onde os mesmos tinham que estar em contato num entrelaçamento contínuo. Neste jogo, um corpo propunha uma forma e os outros se uniam à ele prontamente com o intuito de preencher possíveis espaços vazios gerados pelo primeiro corpo. Vazios, túneis, espaços de encaixe e complementação, geravam um outro corpo, único, escultural, anatomicamente fantástico, revelado pela união de três corpos. O diálogo com as imagens projetadas começou com a captura de imagens de partes do corpo de maneira isolada: mãos, pés, olhos, entre outras. Elegeu-se primeiramente as mãos, por sua força expressiva, sua presença nas ações mais simples do ser humano como levar o alimento à boca, enxugar o suor da testa, segurar as mãos do outro, etc., mas também por sua habilidade em realizar movimentos de alta complexidade e coordenação motora fina. As imagens geradas primeiramente por movimentos improvisados foram editadas pela designer Juliana Prado: cortadas, multiplicadas e posteriormente projetadas, em uma superfície plana (parede) e também nos corpos dos intérpretes-colaboradores sobrepostos a ela: Diego Carvalho, Mery Horta e Taísa Magno. 




No trecho apresentado, os três corpos compõem uma espécie de escultura dinâmica, misturando suas partes em uma estrutura única que se mantém estática por alguns momentos, mantendo apenas o fluxo de movimentos das mãos que dialogam com a imagem das mãos projetadas. Esse corpo escultórico desloca-se lentamente por um espaço reduzido compondo outras configurações formais, rearranjando seus pedaços em um caminho semelhante aos anagramas do corpo de Hans Bellmer que intercambiavam as partes de suas bonecas. As imagens das mãos tateiam, deslizam, exploram esse território corpóreo revolvendo-o e misturando-se a ele em um diálogo imaginário entre mãos reais e virtuais. 
Conta-se ainda com a imagem sombra do corpo escultórico. “A imagem fugaz da sombra, a deformar implacavelmente a silhueta humana...” (Moraes, 2002, p.97) As sombras, mas principalmente a desconfiança sobre sua natureza, habitou o imaginário artístico entre o final do século XIX e meados do século XX. Em suas formas instáveis e efêmeras, as silhuetas de corpos e objetos exploravam um universo sombrio, misterioso causando desconfiança sobre um improvável desgarrar autônomo da sombra com relação a sua fonte originária. Nesta experiência, a sombra surge como uma silhueta descarnada, em diálogo com o corpo físico e suas imagens projetadas, promovendo diferentes camadas de visualização a partir de uma mesma origem, o corpo.

Referência Bibliográfica

MORAES, Eliane Robert. O corpo impossível: a decomposição da figura humana de Lautréamont à Bataille, São Paulo: Iluminuras/FAPESP. 2002

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Corpo Estranho



“Estranho vem do Latim extraneus, ‘o que é de fora, desconhecido, não-familiar’, de extra, ‘fora’. Para o narcisismo humano, tudo o que não é do conhecimento da gente é esquisito, chama a atenção, é visto com certa ressalva.”
Acessado em 9/04/2013


No artigo denominado “O Estranho” (Unheimlich) de 1919, Freud explora a ambivalência do termo na língua alemã. Segundo ele, “entre os seus diferentes matizes de significados a palavra ‘heimlich’ exibe um que é idêntico ao seu oposto ‘unheimlich’,traz assim, uma ambigüidade ao termo, associando o estranho ao familiar.
O Grupo de pesquisa Corpo Estranho foi criado por dois fatores distintos. O primeiro foi o desejo de alguns alunos-parceiros de compartilhar questões, que já me acompanham há algum tempo, referentes às deformações e fragmentações da forma corporal nos processos de criação em Dança; a segunda, foi a minha inserção no curso de Mestrado em Artes Visuais (Escola de Belas Artes/Universidade Federal do Rio de Janeiro).No decorrer da História da Dança, percebe-se uma grande recorrência de padrões estéticos que valorizavam, principalmente, o belo e o harmônico. Neste estudo, em contrapartida, busca-se um caminho onde o feio, o assimétrico, o desproporcional são creditados como possibilidades que desvelam uma singularidade abjeta através de um olhar dissecado pela imaginação criadora.
O Grupo vem trabalhando, desde 2012, nas dependências da Escola de Educação Física e Desportos, nos espaços destinados às atividades práticas dos Cursos de Graduação em Dança da UFRJ.
Objetiva-se a criação de um espaço interdisciplinar, que possa agregar diferentes meios de expressão, integrando alunos e demais pesquisadores de variadas instâncias artísticas em um fazer comum, talvez "incomum”.


Por se tratar de uma pesquisa teórico-prática, o projeto busca conjugar o fazer artístico com a fundamentação teórica através de ações distintas:
Aulas de técnica de dança, laboratórios de criação gestual e audiovisual, leituras referentes ao tema proposto, pesquisa iconográfica (visualização de imagens, documentários, exposições, espetáculos), entre outras.
Os laboratórios de criação gestual consistem em experimentações corporais a partir de estímulos pré-determinados que objetivam a investigação/descoberta de gestos e estados corpóreos que dialoguem com o universo imagético e conceitual que o tema propõe.
Uma estratégia muito utilizada e aprofundada foi o jogo de velar e desvelar das partes do corpo realizado individualmente, em duplas e por último em trio. Neste jogo a principal regra seria esconder e revelar determinadas partes do corpo estipulando um ângulo fixo para visualização do mesmo.





Dentre os princípios utilizados por Hans Bellmer, na composição de suas bonecas, seja em esculturas ou gravuras, destaco aqui os “anagramas do corpo”

“Um anagrama (do grego ana = "voltar" ou "repetir" + graphein = "escrever") é uma espécie de jogo de palavras, resultando do rearranjo das letras de uma palavra ou frase para produzir outras palavras, utilizando todas as letras originais exatamente uma vez. Um exemplo conhecido é o nome da personagem Iracema, claro anagrama de América, no romance de José de Alencar.”
Acessado em 04/06/2013.

Os anagramas do corpo propostos por Bellmer determinam possibilidades de combinação entre as partes do corpo que diferem da representação do corpo humano como usualmente o conhecemos.
Assim, com o intuito de afastar a imagem da estrutura íntegra do corpo humano, foi sendo composto um “outro” corpo, a partir dos pedaços de três corpos se entrelaçando e imbricando suas partes, trazendo à tona, possibilidades de uma anatomia fantástica.

Nesta experiência, com o grupo, a escolha de um ponto de vista pré-determinado foi crucial para a visualização dessas metamorfoses de dois ou mais corpos em um. A visualização de outro plano acarretaria em um desvelamento dos artifícios que formam esse corpo ilusório.



“O corpo estranho se presta a todas as fantasias que suscitam a atração ou a repulsão. Ele pode ser idealizado como a expressão de uma beleza inacessível e/ou rejeitado como o símbolo que objetiva os sinais da repulsa. Provocando de uma maneira imaginária a possível vertigem da mais radical alteridade, ele cristaliza as frustrações e, simultaneamente, possibilita a aventura misteriosa dos sentidos”. (JEUDY, 2002, p.102)

Corpo Estranho - Grupo de pesquisa e composição coreográfica
Coordenação: Aline Teixeira
Intérpretes-criadores: Diego Carvalho, Mery Horta e Taísa Magno
Designer: Juliana Prado


Referências Bibliográficas
JEUDY, Henry-Pierre. O corpo como objeto de arte. São Paulo: Estação Liberdade, 2002.

Para o texto "O Estranho" de Freud;



quarta-feira, 10 de abril de 2013

Um processo aos pedaços - o início


Desde que me formei no curso de bacharelado em dança da UFRJ, venho pesquisando sobre o que seria a deformação da forma corporal e assuntos afins. A fragmentação da figura humana, que também considero inserida dentro dessa pesquisa sobre deformação, tem estimulado bastante os meus últimos trabalhos coreográficos. Este último, até o momento intitulado “Pedaços” é fruto de algumas reflexões realizadas por alguns artistas plásticos, escritores e pensadores do modernismo, em especial, Georges Bataille e Hans Bellmer. Nomes geralmente associados ao movimento surrealista, apesar de ambos serem dotados de especificidades únicas para serem confinadas em um movimento da arte moderna. A pesquisa, assim, transita por um imaginário fantástico e se apóia em questões como a fragmentação corporal, a deformação, a mutilação e a dissociação das partes do corpo.

Entrei em contato com o pensamento de Georges Bataille e com a obra de Hans Bellmer a partir do livro “O corpo Impossível” de Eliane Robert Moraes. No livro, Eliane faz um estudo aprofundado do processo de decomposição da figura humana pelos modernistas com atenção especial ao pensamento de Bataille. Apesar de intensa identificação com o tema, ainda não sabia qual seria o fio condutor da pesquisa e só o encontrei quando após uma série de leituras fui para a ‘prática’. Até então, não conseguia definir o que estava pesquisando, mas conseguia por o projeto em prática. A partir daí as coisas foram ficando mais claras e um possível tema foi sendo recortado.

É importante atentar para “o instante sensível e espontâneo em que uma possível obra é indiciada. Pode ser tudo, mas ainda não é nada, só uma possibilidade. (...) A percepção artística acontece nesse instante de transformação singular que aponta para uma possível futura obra” (Salles, 2001, p.97)

O processo foi de intensa experimentação. Eu experimentava, filmava, observava e refletia. Depois de alguns meses nessa atividade quis começar a fechar algumas idéias e seqüências. Eu sempre fui muito ligada à forma do movimento corporal e o natural para mim seria construir o trabalho a partir de seqüências de movimentos militarmente precisas ainda que deformadas. Mas não era possível. O fluxo de movimentos não se permitia confinar em formas exatas e a crise se instaurou.

Continuei experimentando até que algumas idéias foram ficando recorrentes e o trabalho foi se moldando a partir de um roteiro de dinâmicas corporais, onde algumas formas foram responsáveis pela costura do todo a fim de não torná-lo apenas um improviso. Ao invés de seqüências coreográficas, uma trajetória linear reta dividida por variações de dinâmica corporal, pontuada por formas geometricamente definidas/deformadas que buscam estados corpóreos provenientes de variações na intensidade da força aplicada ao movimento. Pedaços de corpo que se escondem e reaparecem transitando entre a falta e o excesso. Continua...

MORAES, Eliane Robert. O Corpo Impossível: A decomposição da figura humana de Lautréamont à Bataille, São Paulo: Iluminuras/FAPESP. 2002

SALLES, Cecília Almeida. Gesto Inacabado – Processo de criação artística. Segunda edição. São Paulo: Annablumme/FAPESP: 2004.


"Pedaços", 2010 Foto de Fabiana Amaral