Mostrando postagens com marcador Processo de criação. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Processo de criação. Mostrar todas as postagens

sábado, 11 de outubro de 2014

Sobre inacabamento e continuidade...

Sempre que começo a me interessar por um determinado assunto, já sei que é meu filtro perceptivo me indicando o caminho de um novo processo de criação ou talvez, novos estímulos dando continuidade aos processos inacabados.
Recorro à Cecília Almeida Salles e seu livro O gesto inacabado, que sempre me sussurra sugestões e sublinha repetidamente questões relevantes sobre os processos de criação artística, me acalma reproduzindo as falas de artistas, me renova o frescor da descoberta.
Por um pouco mais de dois anos me debrucei sobre a obra de um artista alemão incrível que iluminou minha imaginação e revelou em meu corpo a potência do inacabado. Hans Bellmer me alimentou imagética e conceitualmente e me fez mergulhar em um universo pessoalmente estranho, por vezes difícil de acessar.
Após percorrer os corpos inanimados de suas bonecas, me encontro, agora, flertando com um corpo de maiores proporções que vive, respira e se move como eu. Persigo obsessivamente as árvores que encontro pelo caminho, como se a qualquer momento elas fossem criar pernas e fugir. O momento da relação é aquele do encantamento, da descoberta do desconhecido, do tatear cuidadosamente, da gentileza com essa que, no momento, tem dado asas à continuidade de meu inacabamento.
Remexendo em álbuns de fotografias antigas, descobri que minha curiosidade e admiração pelas árvores já vem de longa data. Pelos lugares que percorri, elas sempre estiveram lá puxando meu olhar, me atraindo, me chamando. Finalmente atendi e...  vamos ver como continua essa conversa.

“O inacabado se impõe, a ordem é incompleta e mutável. É um movimento em potencial em direção à completude ou algo como a incerteza de futuro e a sugestão de inúmeras possibilidades de prolongamento. O inacabado incita à exploração, à descoberta.” (Paola Berenstein Jacques)


Referências Bibliográficas

JACQUES, Paola Berenstein. Estética da ginga: a arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003.

sábado, 28 de junho de 2014

E o processo continua...



Hans Bellmer. La Poupée, 1936

O artista vive de olhos, ouvidos e poros abertos ao mundo, selecionando e reelaborando informações apreendidas e que, possam de alguma forma, estar presentes não só em uma obra, mas em seu percurso como criador. Sendo assim, “o artista recolhe e acolhe tudo o que, de algum modo, lhe atrai” (Salles, 2004), mesmo que momentaneamente não saiba o porquê. Sendo a percepção o elemento primeiro na obtenção de informações e futuramente na produção de conhecimento, o modo pelo qual o artista compreende e apreende o mundo à sua volta passa por um filtro perceptivo, único e pessoal.
O meu filtro perceptivo para o considerado estranho, incomum, temporariamente adormecido após a aventura de uma defesa de mestrado, abriu os olhos renovado e descansado para espreguiçar e voltar à ativa, ao trabalho.
Me deparo com leituras sobre processos de criação que se confundem com meus fazeres diários, meus processos de/em construção. Volto ao artista que acompanhou nos últimos anos meus fazeres criativos, pressionando meus pensamentos, transformando meu olhar sobre o corpo, o gesto, a imagem, a dança... a vida.
Pesquisar a obra de um artista é praticamente um mergulho na superfície. Ficamos à margem, recolhendo indícios, pistas de seu percurso criativo, com o intuito de aproximar-nos da realidade própria do seu trabalho. Hans Bellmer me fez conhecer um universo singular, regido por leis próprias, criadas em um processo minucioso e íntimo entre o artista e sua obra no percurso de seu projeto poético. Sugeriu-me outras maneiras de perceber o mundo através de um filtro que passa pela imaginação, afastando-se das representações fixas que reduzem o olhar a limites e medidas. Por fim, desnudou-me de conceitos pré-concebidos, revelando meus desejos mais íntimos, aqueles que escondemos, mesmo nos sonhos.
Retomar um processo inacabado é transitar por tendências e acasos, investir na potência de sua continuidade...

"No romance ‘Frankenstein’ de Mary Shelley, a criatura, na sua condição primeva, era puro monstro e, a partir da interação com o mundo dos homens, teve a chance de se humanizar. Por meio do letramento, sua bestialidade foi suplantada, permitindo alcançar o senso de si e vislumbrar que havia um lugar para seu ser (humano). Frankenstein é o símbolo de uma sociedade diversa, cujos membros disputavam lugares sem, contudo, ter a certeza do lugar a que pertenciam. As incertezas e inseguranças se estabeleciam por não haver mais um lugar existente, pronto, à espera de cada um, por mais que alguns ainda acreditassem na presença dele. Cada indivíduo enfrentava o desafio de construir seu próprio lugar no mundo e os próprios valores." (MALTA, 2009).


Referências Bibliográficas

SALLES, Cecília Almeida. Gesto Inacabado – Processo de criação artística. Segunda edição. São Paulo: Annablumme/FAPESP: 2004.

MALTA, Marize. Corpos Estranhos: Frankenstein e o objeto eclético. In: Corpo: identidades, memórias, subjetividades. Org. Monica Pimenta Velloso, Joëlle Rouchou e Cláudia Oliveira. Rio de Janeiro: Mauad X/FAPERJ, 2009.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Exposição Virtual e entrevista no ctrl+alt+dança

A série de fotografias exibidas na Galeria Virtual do Ctrl+alt+dança, contou com uma entrevista, na verdade, um bate papo com Andre Bern sobre a pesquisa que teve como principal estímulo a representação do corpo feminino na obra do artista alemão Han Bellmer. Nesse bate papo são abordados principalmente os procedimentos utilizados na construção das imagens do corpo fragmentado no diálogo pretendido entre dança e fotografia.







Confira abaixo o link para visualização da entrevista, além do texto e das fotografias:




segunda-feira, 3 de junho de 2013

Corpo Estranho



“Estranho vem do Latim extraneus, ‘o que é de fora, desconhecido, não-familiar’, de extra, ‘fora’. Para o narcisismo humano, tudo o que não é do conhecimento da gente é esquisito, chama a atenção, é visto com certa ressalva.”
Acessado em 9/04/2013


No artigo denominado “O Estranho” (Unheimlich) de 1919, Freud explora a ambivalência do termo na língua alemã. Segundo ele, “entre os seus diferentes matizes de significados a palavra ‘heimlich’ exibe um que é idêntico ao seu oposto ‘unheimlich’,traz assim, uma ambigüidade ao termo, associando o estranho ao familiar.
O Grupo de pesquisa Corpo Estranho foi criado por dois fatores distintos. O primeiro foi o desejo de alguns alunos-parceiros de compartilhar questões, que já me acompanham há algum tempo, referentes às deformações e fragmentações da forma corporal nos processos de criação em Dança; a segunda, foi a minha inserção no curso de Mestrado em Artes Visuais (Escola de Belas Artes/Universidade Federal do Rio de Janeiro).No decorrer da História da Dança, percebe-se uma grande recorrência de padrões estéticos que valorizavam, principalmente, o belo e o harmônico. Neste estudo, em contrapartida, busca-se um caminho onde o feio, o assimétrico, o desproporcional são creditados como possibilidades que desvelam uma singularidade abjeta através de um olhar dissecado pela imaginação criadora.
O Grupo vem trabalhando, desde 2012, nas dependências da Escola de Educação Física e Desportos, nos espaços destinados às atividades práticas dos Cursos de Graduação em Dança da UFRJ.
Objetiva-se a criação de um espaço interdisciplinar, que possa agregar diferentes meios de expressão, integrando alunos e demais pesquisadores de variadas instâncias artísticas em um fazer comum, talvez "incomum”.


Por se tratar de uma pesquisa teórico-prática, o projeto busca conjugar o fazer artístico com a fundamentação teórica através de ações distintas:
Aulas de técnica de dança, laboratórios de criação gestual e audiovisual, leituras referentes ao tema proposto, pesquisa iconográfica (visualização de imagens, documentários, exposições, espetáculos), entre outras.
Os laboratórios de criação gestual consistem em experimentações corporais a partir de estímulos pré-determinados que objetivam a investigação/descoberta de gestos e estados corpóreos que dialoguem com o universo imagético e conceitual que o tema propõe.
Uma estratégia muito utilizada e aprofundada foi o jogo de velar e desvelar das partes do corpo realizado individualmente, em duplas e por último em trio. Neste jogo a principal regra seria esconder e revelar determinadas partes do corpo estipulando um ângulo fixo para visualização do mesmo.





Dentre os princípios utilizados por Hans Bellmer, na composição de suas bonecas, seja em esculturas ou gravuras, destaco aqui os “anagramas do corpo”

“Um anagrama (do grego ana = "voltar" ou "repetir" + graphein = "escrever") é uma espécie de jogo de palavras, resultando do rearranjo das letras de uma palavra ou frase para produzir outras palavras, utilizando todas as letras originais exatamente uma vez. Um exemplo conhecido é o nome da personagem Iracema, claro anagrama de América, no romance de José de Alencar.”
Acessado em 04/06/2013.

Os anagramas do corpo propostos por Bellmer determinam possibilidades de combinação entre as partes do corpo que diferem da representação do corpo humano como usualmente o conhecemos.
Assim, com o intuito de afastar a imagem da estrutura íntegra do corpo humano, foi sendo composto um “outro” corpo, a partir dos pedaços de três corpos se entrelaçando e imbricando suas partes, trazendo à tona, possibilidades de uma anatomia fantástica.

Nesta experiência, com o grupo, a escolha de um ponto de vista pré-determinado foi crucial para a visualização dessas metamorfoses de dois ou mais corpos em um. A visualização de outro plano acarretaria em um desvelamento dos artifícios que formam esse corpo ilusório.



“O corpo estranho se presta a todas as fantasias que suscitam a atração ou a repulsão. Ele pode ser idealizado como a expressão de uma beleza inacessível e/ou rejeitado como o símbolo que objetiva os sinais da repulsa. Provocando de uma maneira imaginária a possível vertigem da mais radical alteridade, ele cristaliza as frustrações e, simultaneamente, possibilita a aventura misteriosa dos sentidos”. (JEUDY, 2002, p.102)

Corpo Estranho - Grupo de pesquisa e composição coreográfica
Coordenação: Aline Teixeira
Intérpretes-criadores: Diego Carvalho, Mery Horta e Taísa Magno
Designer: Juliana Prado


Referências Bibliográficas
JEUDY, Henry-Pierre. O corpo como objeto de arte. São Paulo: Estação Liberdade, 2002.

Para o texto "O Estranho" de Freud;



quarta-feira, 10 de abril de 2013

Um processo aos pedaços - o início


Desde que me formei no curso de bacharelado em dança da UFRJ, venho pesquisando sobre o que seria a deformação da forma corporal e assuntos afins. A fragmentação da figura humana, que também considero inserida dentro dessa pesquisa sobre deformação, tem estimulado bastante os meus últimos trabalhos coreográficos. Este último, até o momento intitulado “Pedaços” é fruto de algumas reflexões realizadas por alguns artistas plásticos, escritores e pensadores do modernismo, em especial, Georges Bataille e Hans Bellmer. Nomes geralmente associados ao movimento surrealista, apesar de ambos serem dotados de especificidades únicas para serem confinadas em um movimento da arte moderna. A pesquisa, assim, transita por um imaginário fantástico e se apóia em questões como a fragmentação corporal, a deformação, a mutilação e a dissociação das partes do corpo.

Entrei em contato com o pensamento de Georges Bataille e com a obra de Hans Bellmer a partir do livro “O corpo Impossível” de Eliane Robert Moraes. No livro, Eliane faz um estudo aprofundado do processo de decomposição da figura humana pelos modernistas com atenção especial ao pensamento de Bataille. Apesar de intensa identificação com o tema, ainda não sabia qual seria o fio condutor da pesquisa e só o encontrei quando após uma série de leituras fui para a ‘prática’. Até então, não conseguia definir o que estava pesquisando, mas conseguia por o projeto em prática. A partir daí as coisas foram ficando mais claras e um possível tema foi sendo recortado.

É importante atentar para “o instante sensível e espontâneo em que uma possível obra é indiciada. Pode ser tudo, mas ainda não é nada, só uma possibilidade. (...) A percepção artística acontece nesse instante de transformação singular que aponta para uma possível futura obra” (Salles, 2001, p.97)

O processo foi de intensa experimentação. Eu experimentava, filmava, observava e refletia. Depois de alguns meses nessa atividade quis começar a fechar algumas idéias e seqüências. Eu sempre fui muito ligada à forma do movimento corporal e o natural para mim seria construir o trabalho a partir de seqüências de movimentos militarmente precisas ainda que deformadas. Mas não era possível. O fluxo de movimentos não se permitia confinar em formas exatas e a crise se instaurou.

Continuei experimentando até que algumas idéias foram ficando recorrentes e o trabalho foi se moldando a partir de um roteiro de dinâmicas corporais, onde algumas formas foram responsáveis pela costura do todo a fim de não torná-lo apenas um improviso. Ao invés de seqüências coreográficas, uma trajetória linear reta dividida por variações de dinâmica corporal, pontuada por formas geometricamente definidas/deformadas que buscam estados corpóreos provenientes de variações na intensidade da força aplicada ao movimento. Pedaços de corpo que se escondem e reaparecem transitando entre a falta e o excesso. Continua...

MORAES, Eliane Robert. O Corpo Impossível: A decomposição da figura humana de Lautréamont à Bataille, São Paulo: Iluminuras/FAPESP. 2002

SALLES, Cecília Almeida. Gesto Inacabado – Processo de criação artística. Segunda edição. São Paulo: Annablumme/FAPESP: 2004.


"Pedaços", 2010 Foto de Fabiana Amaral