sábado, 20 de junho de 2015

"Inacabamentos e Continuidades"

Tanto tempo sem postar nada, mas trabalhando em cima de temas antes explicitados: Fragmentação e Deformação. Dos corpos das bonecas para os corpos das árvores, com suas imagens atravessando o corpo humano. Foram alguns meses perseguindo as imagens das árvores e buscando investigar suas especificidades, analisando suas formas, funções, características, etc.. Altas, baixas, largas, com flores, frutos ou secas, exibindo seus galhos secos e torcidos, invadindo muros, quebrando calçadas, andando... Sim. Existem árvores que andam!!! Elas estão em toda parte, não só fisicamente, mas no imaginário de artistas como poetas, pintores e escultores. Em filmes de ficção, desenhos animados e séries de televisão elas se tornam símbolos de sabedoria e poder, podem falar, andar e até lutar. Muitas sociedades cultuaram essas ancestrais, embora passem despercebidas na atualidade.

A relação que temos com as árvores é de total dependência, visto que elas fornecem, entre outras coisas, o ar que respiramos. Delas depende nossa vida, nossa existência como o cordão umbilical que alimenta o bebê no ventre da mãe. Dessa gestação nasce hoje “Inacabamentos e Continuidades” fruto da partilha de experiências entre pesquisadores distintos, que enraizaram-se profundamente nesse processo criativo e que hoje habitam um mesmo espaço, uma floresta de sonhos. Gratidão à todos os envolvidos!






sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Dança e Fragmentação Corporal

No dia 11 de fevereiro tivemos a oficina "Fragmentação corporal na Dança: Possibilidades motoras criativas a partir da dissociação das partes do corpo", como contrapartida da residência do Grupo Corpo Estranho no Centro Coreográfico do Rio de Janeiro. Experiência rica e renovadora, compartilhar com pessoas diferentes, que trazem um novo olhar, um frescor para uma pesquisa já em andamento. Por conta disso, posto aqui um artigo que traz um pouco de como são tratadas algumas questões sobre a fragmentação corporal e o corpo que dança na presente pesquisa.














Dança e fragmentação corporal – a experiência da dissociação das partes a partir do movimento sucessivo

O que se entende por fragmentação? Como trabalhar o conceito de fragmentação em um corpo íntegro? Como abordar esse tema a partir do corpo que dança?
Esse artigo faz um recorte de uma pesquisa sobre a fragmentação corporal na dança e sua relação com as Artes Visuais a partir de um diálogo entre corpo e imagem. Ao longo dessa pesquisa, observamos dois diferentes modos de compreender a fragmentação. No primeiro modo, a partir da ideia de autonomia, as partes do corpo são tratadas como estruturas íntegras, independentes de um todo. No segundo modo, com a ideia de dissociação, o corpo é reorganizado em sua estrutura, e suas partes podem ser suprimidas, multiplicadas e deslocadas, afastando-o da imagem do corpo humano como normalmente o conhecemos.
Neste recorte, é proposta uma reflexão sobre as possibilidades de construção gestual na dança a partir da ideia de autonomia, tendo como principal fonte de investigação a análise e a conscientização das partes do corpo e suas potencialidades expressivas pelo viés dos Fundamentos da Dança de Helenita Sá Earp.







Ao longo da história da dança, percebe-se uma grande recorrência de padrões estéticos que valorizam, principalmente, o belo e as formas proporcionais. Por isso, quando se pensa no corpo que dança é ‘quase’ sempre natural imaginar um corpo íntegro movendo-se de maneira leve e harmoniosa. Quando se parte, porém, do pressuposto de uma dança ‘dita’ contemporânea, marcada desde a sua origem pela valorização da singularidade dos corpos, pelo compromisso com a pesquisa e a experimentação e pela diversidade das práticas envolvidas, entre outros fatores, a potencialidade imaginativa acerca das possibilidades estéticas aumenta consideravelmente. Pensar na fragmentação do corpo que dança, após um estranhamento inicial que talvez suscite em imagens de um corpo desmembrado ou deformado, pode se desdobrar em experiências distintas que vão desde o convívio ‘artístico’ entre dançarinos deficientes físicos e não deficientes, até artifícios tecnológicos que criam a ilusão da fragmentação do corpo. Dessa maneira, percebe-se que a fragmentação corporal na dança não se trata de um tema inédito, embora pouco recorrente. Atualmente, temos na dança contemporânea, práticas que permitem diálogos com as mais distintas áreas do conhecimento, artísticas ou não, ampliando assim, seu campo de atuação.

Os ‘Fundamentos da Dança’, concebidos pela Professora Helenita Sá Earp e estudados nos Cursos de Graduação em Dança da UFRJ, visam à construção de um corpo consciente apoiado em princípios que desvelam diferentes técnicas pautado nos processos de investigação criativa do corpo. Não se atendo, portanto, a modelos pré-estabelecidos que enfatizam a reprodução do movimento através de uma lógica do ‘passo de dança’ mas do conhecimento do corpo. Com intenções artístico-pedagógicas, esses fundamentos são organizados em Parâmetros Diversificadores da Ação Corporal: Movimento, Espaço, Forma, Dinâmica e Tempo e, dessa maneira, através de um enfoque seletivo, auxiliam no entendimento dos fatores que envolvem o movimento dançado. Tendo o corpo como referencial, propõe um entrosamento entre esses parâmetros que auxiliam na estruturação de um vocabulário corporal consistente e calcado na investigação criativa de seus movimentos. A separação do estudo em parâmetros distintos visa sublinhar especificidades contidas em cada um deles, mas compreende-se que eles estão em constante relação, por exemplo: um movimento possui uma forma, está em relação com o seu espaço de atuação e é realizado com a aplicação de determinada intensidade da força em um intervalo de tempo, ou seja, cada movimento do nosso corpo perpassa todos os parâmetros.
Não pretendemos, entretanto, aprofundar cada um dos parâmetros mencionados. Aqui, daremos atenção principalmente ao Parâmetro Movimento, por acreditar que este aproxima a fragmentação por dissociação através do movimento sucessivo.

O Parâmetro Movimento responsabiliza-se pelo estudo estrutural do corpo, compreendendo partes e todo, apoiado nos estudos anatômicos que determinam os movimentos de cada parte/segmento do corpo humano e deste como um todo. Faz analogia aos movimentos do universo, translação e rotação, definindo os movimentos básicos do corpo por translações (deslocamentos) e rotações (giros em torno de um eixo fixo). Focaliza cada parte do corpo a fim de entender melhor seu funcionamento e explora as possibilidades dos movimentos serem executados de maneira isolada (um movimento e/ou uma parte) e combinada (mais de um movimento e/ou parte). Determina duas maneiras de combinar os movimentos: sucessivamente, quando um movimento é executado por vez em uma série encadeada e simultaneamente, quando mais de um movimento é executado por vez. Estabelece ainda dois estados corpóreos: o primeiro, denominado Liberado, caracteriza-se pelo deslocamento das partes e/ou do corpo como um todo no espaço, onde o fluxo de movimentos é perfeitamente visível; o segundo, denominado Potencial, caracteriza-se pela pausa, pela imobilidade, mas, no corpo, existe um movimento latente, pulsante, imperceptível a olho nu, mas a espreita de um devir. Dessa maneira, a pausa é percebida pela não visualização de movimentos liberados.
O Parâmetro Movimento fornece assim, ferramentas para investigar as possibilidades do corpo a partir dos movimentos das partes, mas também do corpo como um todo. Helenita denominou ‘Famílias da Dança’ os movimentos de translação e rotação do corpo como um todo e agrupados de acordo com aspectos específicos. Transferência, Locomoção, Voltas, Saltos, Quedas, Elevações, caracterizam ações, determinadas por sua própria nomeação, onde o corpo atua de forma global.
Percebe-se, assim a importância deste Parâmetro na presente pesquisa, visto a sua proposição de uma investigação detalhada que abarca tanto os pedaços como o corpo em sua inteireza.

Pensando no conceito de fragmentação por dissociação das partes do corpo (dissociar como separar), na dança podemos utilizar o termo dissociação para os movimentos das partes do corpo que acontecem de maneira sucessiva. Isolando cada parte do corpo nos movimentos articulares que cada uma pode executar, a dissociação acontece com a “separação” na execução dos movimentos. Pode-se assim denominar movimentação fragmentada aquela que se dá pelo movimento sucessivo das/entre partes do corpo.
Visualmente, essa movimentação fragmentada aparece como se entre cada movimento sucessivo existisse uma pausa no tempo, uma micro-parada na trajetória do movimento executado. Essa pausa, porém, não necessariamente interrompe o fluxo do movimento, que pode ser mantido, não só se a pausa for a um tempo curto, mas se o corpo todo estiver integrado na execução do movimento, trazendo uma ligação da energia aplicada ao mesmo. Sendo assim, o movimento fragmentado pode ter interrupção em nível da sua trajetória visual, mantendo a continuidade na aplicação da energia.
Nesse contexto, compreende-se que fragmentação por dissociação acontece com a execução sucessiva das/entre partes do corpo, exigindo uma grande consciência de seus movimentos e estimulando suas possibilidades motoras criativas, sendo explorada como possibilidade estética e pedagógica.








São muitas as maneiras de se pensar e explorar a fragmentação corporal na dança a partir da sucessividade na execução dos movimentos, partindo de combinações simples e chegando às mais complexas como no exemplo abaixo proposto na oficina: 
1. Fazer uma sequencia de movimentos com os membros inferiores, de forma simétrica e ao mesmo tempo;
2. Repetir a sequencia de movimentos, de maneira sucessiva, alternando os membros inferiores, em tempos seguidos;
3. Repetir a sequencia de movimentos com tempos distintos (uma perna começa antes da outra) mas a execução das duas é simultânea, trazendo formas assimétricas e aumentando o trabalho de coordenação motora.

Essa movimentação dita fragmentada pode ser explorada de diversas maneiras a partir de estratégias de improvisação/criação. Por exemplo quando trabalha-se a partir de diferentes apoios de partes do corpo com o chão, leva-se em conta por um lado uma certa limitação da parte que está apoiada e detém peso, sendo mais difícil de deslocá-la, em contrapartida, pode-se criar uma espécie de força de resistência do corpo com o chão que fixa a parte apoiada, e possibilita uma maior liberdade das partes com menos peso ou afastadas do chão.
Fragmentar, decompor, separar, dissociar, ir por partes, decompor o caminho, segmentar o espaço, desenhar linhas, etc.... As possibilidades são infindas, mesmo que algumas posições do corpo no chão possam parecer limitadas. O trabalho de apoio do corpo no chão pode aos poucos trazer uma intimidade que transforme essa superfície rígida e imóvel em parceira de trabalho, em extensão do meu próprio corpo, me auxiliando a fazer de um espaço recortado e limitado, sem limites!


Referências Bibliográficas

EARP, Ana Célia de Sá. Princípios de conexões dos movimentos básicos em suas relações anátomo cinesiológicas na dança segundo Helenita Sá Earp. In: VI Congresso de pesquisa e pós-graduação em artes cênicas 2010 (ABRACE).

JEUDY, Henry-Pierre. O corpo como objeto de arte. São Paulo: Estação Liberdade, 2002.


Créditos das fotos

Coreografia: O avesso da pele
Intérprete-criadora: Taísa Magno
Fotografia: Aline Teixeira

sábado, 11 de outubro de 2014

Top 10: árvores extraordinárias. A mais alta, a mais larga, a mais antiga: descubra algumas das plantas mais incríveis da Terra. Por Fábio Paschoal.

Árvores estão constantemente competindo por comida, lutando para deixar descendentes, escapando de predadores. Elas podem escalar as outras para chegar à luz, enganar animais para dispersar suas sementes, e, em último caso, chegam até a matar.
Assim como os animais, as árvores precisam se alimentar, e fazem de tudo para chegar à sua principal fonte de comida: a luz. As sequoias são as maiores árvores do mundo e podem ter mais de 100 metros de altura. General Sherman, uma sequoia de aproximadamente 2.100 anos possui um peso equivalente a dez baleias-azuis.
Na tentativa de chegar ao topo, algumas espécies foram ao extremo e podem até matar. A figueira mata pau começa a crescer em cima de outras plantas. No processo acaba abraçando sua hospedeira, que não consegue mais transportar água e nutrientes, e acaba morrendo.
Algumas delas estão na Terra há tanto tempo que presenciaram o nascer do sol mais de um milhão de vezes. As bristocne pines têm mais de 4.600 anos, e já estavam aqui quando as pirâmides do Egito foram erguidas ou quando Cristóvão Colombo chegou à América. Outras, como as cerejeiras e os ipês, não vivem tanto, mas possuem flores vistosas que embelezam os campos e as cidades pelo mundo.
Infelizmente a maior ameaça a esses seres vivos é o desmatamento. Mas, na luta pela sobrevivência, as árvores desenvolveram estratégias extraordinárias e farão qualquer coisa para continuar existindo.




Baobá, um ecossistema em uma única árvore

O baobá pode sustentar a vida de incontáveis criaturas. Dos minúsculos insetos que perambulam por suas cavidades até o elefante, o maior mamífero terrestre, que procura a água estocada no tronco para sobreviver às duras condições dos desertos da África. Aves fazem seus ninhos nos galhos, babuínos devoram suas frutas, morcegos bebem o néctar de suas flores. É um mundo em forma de planta.




Cerejeira, a beleza e a fragilidade da natureza

A floração das cerejeiras anuncia o início da primavera no Japão. Entre março e maio o país é tomado por diferentes tons de branco e rosa que transformam a paisagem de forma deslumbrante. As árvores ficam floridas durante uma semana aproximadamente, e suas flores simbolizam a beleza e a fragilidade da natureza e da própria vida.





Bristocone pine, a árvore mais antiga

Bristocone pine é uma espécie de pinheiro que vive no limite. Localizados a três mil metros de altitude, nas California's White Mountains, nos Estados Unidos, suportam temperaturas congelantes e ventos tão fortes que só conseguem crescer durante seis semanas por ano. São as árvores mais antigas da Terra. O indivíduo mais velho, Methuselah, foi descoberto em 1957 e acredita-se que tenha aproximadamente 4.600 anos. A localização dessa relíquia é mantida em segredo para evitar vandalismo.





Ipê, uma explosão de cores

A floração dos ipês anuncia a primavera no Brasil. No final de agosto ou começo de setembro, as cidades e os campos são tomados por uma sucessão de cores. Primeiro são os roxos, depois os amarelos (foto), brancos e finalmente os rosas. Cada árvore fica florida durante uma semana, aproximadamente. Então as flores caem, dando um colorido especial ao chão.





Figueira mata pau, a árvore assassina

A figueira mata pau é dispersa por aves e macacos. Quando eles defecam, as sementes frequentemente caem em um galho de outra árvore e começam a se desenvolver. As folhas procuram a luz enquanto as raízes buscam o solo. Durante o processo a árvore hospedeira é envolvida em um abraço mortal. A pressão exercida pela figueira é tão grande que a outra planta não consegue mais transportar seiva e acaba perecendo.Ela pode ser encontrada em regiões tropicais pelo mundo, incluindo o Pantanal, a Mata Atlântica e Amazônia.





Sequoia gigante, a maior árvore do mundo

General Sherman é o nome da maior árvore do mundo em volume segundo o Guinness, o livro dos recordes. A sequoia de 82,6 metros de altura, 25,9 metros de diâmetro, 1.814 toneladas e aproximadamente 2.100 anos se encontra no Sequoia National Park, California, Estados Unidos. Teria madeira suficiente para a produção de cinco bilhões de fósforos. Mas convenhamos, seria um desperdício cortar esse gigante só para acender o fogão de casa.





Cipreste mexicano, a árvore mais larga

A planta mais "gordinha" do planeta é um cipreste mexicano. Com 36 metros de cintura, a Árvore de Santa María del Tule, localizada no estado de Oaxaca, México, ganhou um lugar no Guinness, o livro dos recordes, como a árvore com maior circunferência do mundo.





Castanheira, a prova de que tudo na natureza está conectado

O fruto da castanheira (do Pará), chamado de ouriço, abriga sementes ricas em gordura e nutrientes em seu interior. No entanto, sua casca é tão dura que é impossível de ser aberta pela maioria dos animais. Porém, um pequeno mamífero de dentes fortes é capaz de fazer um buraco nessa armadura impenetrável. A cutia pode encontrar até 30 castanhas lá dentro, o que é muito para comer de uma vez só. As sobras são enterradas na terra, para uma refeição posterior. Mas a memória do pequeno roedor não é perfeita: algumas sementes são esquecidas no solo da floresta amazônica e darão origem a uma nova geração. O ouriço é deixado no chão e, quando começa a temporada de chuvas, se enche de água – a partir do buraco deixado pela cutia – e se transforma em um berçário para sapos e insetos. Nada é desperdiçado.





Embaúba, a pioneira

Quando uma clareira é aberta na floresta, as embaúbas são as primeiras árvores a ocupar o espaço. Possuem folhas largas, capazes de captar muita luz, aumentando a taxa de fotossíntese e, consequentemente, de crescimento. Seus frutos são atraentes para muitas espécies de aves e macacos. Na base de cada folha existe uma glândula de açúcar, um atrativo para formigas, que acabam se instalando no tronco oco da planta. Em troca, o exército de pequenos insetos irá proteger a planta contra os herbívoros.
A embaúba é encontrada desde o México até o norte da Argentina.





Cajueiro, o gigante de Piragi

O Cajueiro de Piragi é o maior do mundo. Uma mutação genética faz com que sua copa cresça sem parar. Hoje seu tamanho é equivalente a um campo de futebol. A árvore dá cerca de 70 mil frutos ao ano e é uma atração imperdível em Natal, Rio Grande do Norte.



Disponível em: <http://viajeaqui.abril.com.br/materias/arvores-pelo-mundo>

Acesso em:16/09/14



Sobre inacabamento e continuidade...

Sempre que começo a me interessar por um determinado assunto, já sei que é meu filtro perceptivo me indicando o caminho de um novo processo de criação ou talvez, novos estímulos dando continuidade aos processos inacabados.
Recorro à Cecília Almeida Salles e seu livro O gesto inacabado, que sempre me sussurra sugestões e sublinha repetidamente questões relevantes sobre os processos de criação artística, me acalma reproduzindo as falas de artistas, me renova o frescor da descoberta.
Por um pouco mais de dois anos me debrucei sobre a obra de um artista alemão incrível que iluminou minha imaginação e revelou em meu corpo a potência do inacabado. Hans Bellmer me alimentou imagética e conceitualmente e me fez mergulhar em um universo pessoalmente estranho, por vezes difícil de acessar.
Após percorrer os corpos inanimados de suas bonecas, me encontro, agora, flertando com um corpo de maiores proporções que vive, respira e se move como eu. Persigo obsessivamente as árvores que encontro pelo caminho, como se a qualquer momento elas fossem criar pernas e fugir. O momento da relação é aquele do encantamento, da descoberta do desconhecido, do tatear cuidadosamente, da gentileza com essa que, no momento, tem dado asas à continuidade de meu inacabamento.
Remexendo em álbuns de fotografias antigas, descobri que minha curiosidade e admiração pelas árvores já vem de longa data. Pelos lugares que percorri, elas sempre estiveram lá puxando meu olhar, me atraindo, me chamando. Finalmente atendi e...  vamos ver como continua essa conversa.

“O inacabado se impõe, a ordem é incompleta e mutável. É um movimento em potencial em direção à completude ou algo como a incerteza de futuro e a sugestão de inúmeras possibilidades de prolongamento. O inacabado incita à exploração, à descoberta.” (Paola Berenstein Jacques)


Referências Bibliográficas

JACQUES, Paola Berenstein. Estética da ginga: a arquitetura das favelas através da obra de Hélio Oiticica. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Eric Kellerman - um olhar não-erótico para o corpo feminino nu.

Estou sempre atenta para imagens de corpos que me tragam um certo estranhamento e continuem a alimentar meus processos criativos. Me deparo constantemente com pintores, escultores e fotógrafos, entre outros artistas, que 'me pegam de jeito'. Meus amigos que sabem das minhas preferências, vivem me indicando trabalhos nem sempre 'estranhos', mas que sugerem outras maneiras de perceber e visualizar o corpo, contribuindo muito em minhas pesquisas. Essa semana minha irmã Adriana me enviou uma fotografia de Eric Kellerman, e eu fui curiosamente tentar saber um pouco mais dele...

 The Box

Eric Kellerman é um britânico que viveu perto de Nijmegenna Holanda por um tempo muito longo. Em 2008, ele aposentou-se da academia para passar mais tempo na fotografia. Especializado no nu, ele trabalha quase que inteiramente no estúdio com uma equipe regular de colaboradores do sexo feminino, a maioria dos quais tem um interesse sério em movimento (dança, acrobacia, yoga, artes marciais). Às vezes, quando ninguém está disponível ele fotografa legumes e frutas por desespero.
Kellerman considera que seu trabalho seja distante, abstrato, melancólico, 'anti-erótico’, apesar de seu assunto. Ele enfatiza linhas, formas geométricas, texturas, movimento implícito e, acima de tudo, claro-escuro. Ele gosta de criar ambiguidade em suas fotos, de modo que o espectador, por vezes, não saiba para qual parte do corpo está olhando. Desta forma, ele tenta libertar o corpo feminino das suas associações convencionais.

The Box

Striped Light

The Averted Gaze I

The Averted Gaze II

Enfatizando diferentes ângulos do corpo, destacando e fragmentando partes dele pela luz, as fotografias de Eric Kellerman, trazem o corpo feminino em formas inusitadas, mas principalmente destacam a beleza de determinadas partes do corpo, mesmo quando não as reconhecemos de imediato. A fragmentação aguça a imaginação para o que está oculto e ao tentar desvendar as imagens, vemos sempre mais do que nos é permitido ver.

Todas as imagens e informações retiradas do site do artista:

domingo, 29 de junho de 2014

Os desenhos de Hans Bellmer

A obra de Hans Bellmer é composta pelas bonecas ‘esculpidas’ e fotografias provenientes delas, além de uma produção textual e gráfica extremamente elaborada. Para ele, interessava as possibilidades provenientes de uma relação mais imediata entre imaginação e realidade do que a distinção entre os meios de expressão.

Ao analisar as imagens criadas por Bellmer, percebe-se que a boneca em sua forma plástica consistia em um objeto dotado de infinitas possibilidades de transformação, porém, desenhá-las possibilitou a criação de posturas corporais ‘simultâneas’ que a versão plástica só permitia acontecer de maneira ‘sucessiva’. Percebe-se, principalmente nos desenhos, como um corpo delineado pelo desejo se sobrepõe a um corpo ‘natural’ esgarçando suas possibilidades expressivas.

Hans Bellmer. Ilustração para L’histoire del’oeil 
                           de Georges Bataille, 1947.                                             

sábado, 28 de junho de 2014

E o processo continua...



Hans Bellmer. La Poupée, 1936

O artista vive de olhos, ouvidos e poros abertos ao mundo, selecionando e reelaborando informações apreendidas e que, possam de alguma forma, estar presentes não só em uma obra, mas em seu percurso como criador. Sendo assim, “o artista recolhe e acolhe tudo o que, de algum modo, lhe atrai” (Salles, 2004), mesmo que momentaneamente não saiba o porquê. Sendo a percepção o elemento primeiro na obtenção de informações e futuramente na produção de conhecimento, o modo pelo qual o artista compreende e apreende o mundo à sua volta passa por um filtro perceptivo, único e pessoal.
O meu filtro perceptivo para o considerado estranho, incomum, temporariamente adormecido após a aventura de uma defesa de mestrado, abriu os olhos renovado e descansado para espreguiçar e voltar à ativa, ao trabalho.
Me deparo com leituras sobre processos de criação que se confundem com meus fazeres diários, meus processos de/em construção. Volto ao artista que acompanhou nos últimos anos meus fazeres criativos, pressionando meus pensamentos, transformando meu olhar sobre o corpo, o gesto, a imagem, a dança... a vida.
Pesquisar a obra de um artista é praticamente um mergulho na superfície. Ficamos à margem, recolhendo indícios, pistas de seu percurso criativo, com o intuito de aproximar-nos da realidade própria do seu trabalho. Hans Bellmer me fez conhecer um universo singular, regido por leis próprias, criadas em um processo minucioso e íntimo entre o artista e sua obra no percurso de seu projeto poético. Sugeriu-me outras maneiras de perceber o mundo através de um filtro que passa pela imaginação, afastando-se das representações fixas que reduzem o olhar a limites e medidas. Por fim, desnudou-me de conceitos pré-concebidos, revelando meus desejos mais íntimos, aqueles que escondemos, mesmo nos sonhos.
Retomar um processo inacabado é transitar por tendências e acasos, investir na potência de sua continuidade...

"No romance ‘Frankenstein’ de Mary Shelley, a criatura, na sua condição primeva, era puro monstro e, a partir da interação com o mundo dos homens, teve a chance de se humanizar. Por meio do letramento, sua bestialidade foi suplantada, permitindo alcançar o senso de si e vislumbrar que havia um lugar para seu ser (humano). Frankenstein é o símbolo de uma sociedade diversa, cujos membros disputavam lugares sem, contudo, ter a certeza do lugar a que pertenciam. As incertezas e inseguranças se estabeleciam por não haver mais um lugar existente, pronto, à espera de cada um, por mais que alguns ainda acreditassem na presença dele. Cada indivíduo enfrentava o desafio de construir seu próprio lugar no mundo e os próprios valores." (MALTA, 2009).


Referências Bibliográficas

SALLES, Cecília Almeida. Gesto Inacabado – Processo de criação artística. Segunda edição. São Paulo: Annablumme/FAPESP: 2004.

MALTA, Marize. Corpos Estranhos: Frankenstein e o objeto eclético. In: Corpo: identidades, memórias, subjetividades. Org. Monica Pimenta Velloso, Joëlle Rouchou e Cláudia Oliveira. Rio de Janeiro: Mauad X/FAPERJ, 2009.