sábado, 28 de junho de 2014

E o processo continua...



Hans Bellmer. La Poupée, 1936

O artista vive de olhos, ouvidos e poros abertos ao mundo, selecionando e reelaborando informações apreendidas e que, possam de alguma forma, estar presentes não só em uma obra, mas em seu percurso como criador. Sendo assim, “o artista recolhe e acolhe tudo o que, de algum modo, lhe atrai” (Salles, 2004), mesmo que momentaneamente não saiba o porquê. Sendo a percepção o elemento primeiro na obtenção de informações e futuramente na produção de conhecimento, o modo pelo qual o artista compreende e apreende o mundo à sua volta passa por um filtro perceptivo, único e pessoal.
O meu filtro perceptivo para o considerado estranho, incomum, temporariamente adormecido após a aventura de uma defesa de mestrado, abriu os olhos renovado e descansado para espreguiçar e voltar à ativa, ao trabalho.
Me deparo com leituras sobre processos de criação que se confundem com meus fazeres diários, meus processos de/em construção. Volto ao artista que acompanhou nos últimos anos meus fazeres criativos, pressionando meus pensamentos, transformando meu olhar sobre o corpo, o gesto, a imagem, a dança... a vida.
Pesquisar a obra de um artista é praticamente um mergulho na superfície. Ficamos à margem, recolhendo indícios, pistas de seu percurso criativo, com o intuito de aproximar-nos da realidade própria do seu trabalho. Hans Bellmer me fez conhecer um universo singular, regido por leis próprias, criadas em um processo minucioso e íntimo entre o artista e sua obra no percurso de seu projeto poético. Sugeriu-me outras maneiras de perceber o mundo através de um filtro que passa pela imaginação, afastando-se das representações fixas que reduzem o olhar a limites e medidas. Por fim, desnudou-me de conceitos pré-concebidos, revelando meus desejos mais íntimos, aqueles que escondemos, mesmo nos sonhos.
Retomar um processo inacabado é transitar por tendências e acasos, investir na potência de sua continuidade...

"No romance ‘Frankenstein’ de Mary Shelley, a criatura, na sua condição primeva, era puro monstro e, a partir da interação com o mundo dos homens, teve a chance de se humanizar. Por meio do letramento, sua bestialidade foi suplantada, permitindo alcançar o senso de si e vislumbrar que havia um lugar para seu ser (humano). Frankenstein é o símbolo de uma sociedade diversa, cujos membros disputavam lugares sem, contudo, ter a certeza do lugar a que pertenciam. As incertezas e inseguranças se estabeleciam por não haver mais um lugar existente, pronto, à espera de cada um, por mais que alguns ainda acreditassem na presença dele. Cada indivíduo enfrentava o desafio de construir seu próprio lugar no mundo e os próprios valores." (MALTA, 2009).


Referências Bibliográficas

SALLES, Cecília Almeida. Gesto Inacabado – Processo de criação artística. Segunda edição. São Paulo: Annablumme/FAPESP: 2004.

MALTA, Marize. Corpos Estranhos: Frankenstein e o objeto eclético. In: Corpo: identidades, memórias, subjetividades. Org. Monica Pimenta Velloso, Joëlle Rouchou e Cláudia Oliveira. Rio de Janeiro: Mauad X/FAPERJ, 2009.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Exposição Virtual e entrevista no ctrl+alt+dança

A série de fotografias exibidas na Galeria Virtual do Ctrl+alt+dança, contou com uma entrevista, na verdade, um bate papo com Andre Bern sobre a pesquisa que teve como principal estímulo a representação do corpo feminino na obra do artista alemão Han Bellmer. Nesse bate papo são abordados principalmente os procedimentos utilizados na construção das imagens do corpo fragmentado no diálogo pretendido entre dança e fotografia.







Confira abaixo o link para visualização da entrevista, além do texto e das fotografias:




Exposição virtual no ctrl+alt+dança!

De 07 a 20 de maio estarão expostas na Galeria Virtual do Ctrl+alt+dança a série intitulada 'Estudo para Androginia', parte da pesquisa sobre o tema da fragmentação corporal, desenvolvido na Dissertação de mestrado 'A construção de um corpo aos pedaços'.


Além das fotografias, a exibição conta ainda com um texto e uma entrevista.

http://ctrlaltdanca.com/galeria/androginia/

terça-feira, 4 de março de 2014

Defesa do mestrado!

No dia 21 de fevereiro do ano corrente fechei um ciclo. Depois de dois anos debruçada sobre o tema da fragmentação corporal, defendi minha dissertação de mestrado intitulada "A construção de um corpo aos pedaços".




A Instalação

A proposta de finalização deste trabalho tratou-se de um espaço de exposição de algumas experiências resultantes neste processo criativo que foram descritas separadamente no trabalho escrito e reunidas em uma espécie de espaço instalativo, onde o tema desenvolvido estava apresentado nos diferentes suportes nos quais foi experienciado. O corpo fragmentado foi evidenciado em imagens impressas e projetadas e também em sua presença física. Apresentados simultaneamente, esses fragmentos poéticos compartilharam um espaço recortado propondo ao espectador um olhar fragmentado pela impossibilidade de apreensão visual de um todo. O corpo que se quis construir desde o início do processo foi continuamente destruído, reconstruído, decomposto, recomposto e se apresentou fragmentado, quer por autonomia ou dissociação. 
A partir da ideia de autonomia, as partes do corpo são tratadas como estruturas íntegras, independentes de um todo. Com a ideia de dissociação, o corpo é reorganizado em sua estrutura, e suas partes podem ser suprimidas, multiplicadas e deslocadas, afastando-o da imagem do corpo humano como normalmente o conhecemos. Esses dois modos de compreender a fragmentação foram percebidos nos trabalhos de alguns artistas, que, por exemplo, dedicam maior atenção às partes, aproximando e detalhando pedaços do corpo, ou enfocam a possibilidade de alteração da figura humana, em processos de transformação de sua estrutura, trazendo à tona imagens de corpos ilusórios, fantásticos. 

Do processo


Por não se tratar somente da criação de uma obra, mas da composição de um trabalho acadêmico experiência prática e reflexão teórica caminharam juntas. No decorrer desses dois anos, foram realizadas diversas experimentações que indicaram um caminho onde as ferramentas de composição das linguagens cênicas e visuais poderiam se entrelaçar e possibilitar um diálogo mais profundo, a fim de estabelecer uma relação verdadeiramente interdisciplinar entre as duas áreas postas em questão nesse trabalho, a Dança e as Artes Visuais. Perseguiu-se o tema da fragmentação corporal, alimentado por inúmeras referências imagéticas e conceituais, sendo a principal, a obra do artista alemão Hans Bellmer. Além dele, contou-se com uma vasta iconografia de trabalhos tanto Surrealistas quanto Contemporâneos, tendo em comum o fato de constituírem obras onde o corpo era apresentado fragmentado, distante de uma configuração reconhecível de um corpo humano.


Algumas experiências realizadas neste processo criativo.

Acredito que o processo criativo é acompanhado de um grande exercício de escuta e observação no qual o artista deve estar atento às escolhas que a própria obra faz e lhe impõe. Ao artista não resta apenas obedecer. Há que abrir o canal sensível de entendimento e comunhão com a obra a fim de deixá-la vir à tona a partir do meio mais propício para o seu transbordamento. Pois a arte, acontece nesses entre-lugares, onde as forças se atraem, se repelem e por vezes se esbarram, criando cacos de possibilidades que se arremessam sem direção carregando a potencialidade de sua concretização.

Apesar do grande leque de possibilidades que se abriu, entendo que o tema não se esgotou, por considerar que alguns resultados das experiências apontaram na direção de possíveis desdobramentos, não realizados. Por isso não se trata de um produto final, mas provisório. Inacabado como acredita-se o próprio corpo...




segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Corpo Estranho no LAB-UNI!

Apresentação da pesquisa: A construção de um corpo aos pedaços no Festival Panorama 2013 - LAB UNI - Laboratório Universitário

http://panoramafestival.com/2013/portfolio-items/laboratorio-universidades-provocando-a-investigacao-artistica/


A proposta para o Lab – Uni, foi no formato de apresentação de pesquisa seguido de um diálogo aberto com o público no sentido de compartilhar questões que vem alimentando este processo. Consistiu em mostrar trechos coreográficos e discorrer um pouco sobre as questões conceituais do projeto.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Apresentação na Mostra Mais 2013!






Entre os dias 8 e 19 de julho realizou-se a Mostra Mais 2013. Evento realizado pela Escola de Comunicação da UFRJ e pelo Curso de Direção Teatral da mesma. A Mostra, composta de encenações  e seminário de pesquisas da direção teatral, dedicou um dia para performances dos cursos e projetos de dança da UFRJ. Tratou-se da primeira apresentação do Projeto Corpo Estranho com o trecho coreográfico intitulado "Esculturas Dinâmicas". 
O processo de construção deste trecho foi, inicialmente, através de um jogo proposto ao grupo de esconder e revelar as partes do corpo onde os mesmos tinham que estar em contato num entrelaçamento contínuo. Neste jogo, um corpo propunha uma forma e os outros se uniam à ele prontamente com o intuito de preencher possíveis espaços vazios gerados pelo primeiro corpo. Vazios, túneis, espaços de encaixe e complementação, geravam um outro corpo, único, escultural, anatomicamente fantástico, revelado pela união de três corpos. O diálogo com as imagens projetadas começou com a captura de imagens de partes do corpo de maneira isolada: mãos, pés, olhos, entre outras. Elegeu-se primeiramente as mãos, por sua força expressiva, sua presença nas ações mais simples do ser humano como levar o alimento à boca, enxugar o suor da testa, segurar as mãos do outro, etc., mas também por sua habilidade em realizar movimentos de alta complexidade e coordenação motora fina. As imagens geradas primeiramente por movimentos improvisados foram editadas pela designer Juliana Prado: cortadas, multiplicadas e posteriormente projetadas, em uma superfície plana (parede) e também nos corpos dos intérpretes-colaboradores sobrepostos a ela: Diego Carvalho, Mery Horta e Taísa Magno. 




No trecho apresentado, os três corpos compõem uma espécie de escultura dinâmica, misturando suas partes em uma estrutura única que se mantém estática por alguns momentos, mantendo apenas o fluxo de movimentos das mãos que dialogam com a imagem das mãos projetadas. Esse corpo escultórico desloca-se lentamente por um espaço reduzido compondo outras configurações formais, rearranjando seus pedaços em um caminho semelhante aos anagramas do corpo de Hans Bellmer que intercambiavam as partes de suas bonecas. As imagens das mãos tateiam, deslizam, exploram esse território corpóreo revolvendo-o e misturando-se a ele em um diálogo imaginário entre mãos reais e virtuais. 
Conta-se ainda com a imagem sombra do corpo escultórico. “A imagem fugaz da sombra, a deformar implacavelmente a silhueta humana...” (Moraes, 2002, p.97) As sombras, mas principalmente a desconfiança sobre sua natureza, habitou o imaginário artístico entre o final do século XIX e meados do século XX. Em suas formas instáveis e efêmeras, as silhuetas de corpos e objetos exploravam um universo sombrio, misterioso causando desconfiança sobre um improvável desgarrar autônomo da sombra com relação a sua fonte originária. Nesta experiência, a sombra surge como uma silhueta descarnada, em diálogo com o corpo físico e suas imagens projetadas, promovendo diferentes camadas de visualização a partir de uma mesma origem, o corpo.

Referência Bibliográfica

MORAES, Eliane Robert. O corpo impossível: a decomposição da figura humana de Lautréamont à Bataille, São Paulo: Iluminuras/FAPESP. 2002

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Corpo Estranho



“Estranho vem do Latim extraneus, ‘o que é de fora, desconhecido, não-familiar’, de extra, ‘fora’. Para o narcisismo humano, tudo o que não é do conhecimento da gente é esquisito, chama a atenção, é visto com certa ressalva.”
Acessado em 9/04/2013


No artigo denominado “O Estranho” (Unheimlich) de 1919, Freud explora a ambivalência do termo na língua alemã. Segundo ele, “entre os seus diferentes matizes de significados a palavra ‘heimlich’ exibe um que é idêntico ao seu oposto ‘unheimlich’,traz assim, uma ambigüidade ao termo, associando o estranho ao familiar.
O Grupo de pesquisa Corpo Estranho foi criado por dois fatores distintos. O primeiro foi o desejo de alguns alunos-parceiros de compartilhar questões, que já me acompanham há algum tempo, referentes às deformações e fragmentações da forma corporal nos processos de criação em Dança; a segunda, foi a minha inserção no curso de Mestrado em Artes Visuais (Escola de Belas Artes/Universidade Federal do Rio de Janeiro).No decorrer da História da Dança, percebe-se uma grande recorrência de padrões estéticos que valorizavam, principalmente, o belo e o harmônico. Neste estudo, em contrapartida, busca-se um caminho onde o feio, o assimétrico, o desproporcional são creditados como possibilidades que desvelam uma singularidade abjeta através de um olhar dissecado pela imaginação criadora.
O Grupo vem trabalhando, desde 2012, nas dependências da Escola de Educação Física e Desportos, nos espaços destinados às atividades práticas dos Cursos de Graduação em Dança da UFRJ.
Objetiva-se a criação de um espaço interdisciplinar, que possa agregar diferentes meios de expressão, integrando alunos e demais pesquisadores de variadas instâncias artísticas em um fazer comum, talvez "incomum”.


Por se tratar de uma pesquisa teórico-prática, o projeto busca conjugar o fazer artístico com a fundamentação teórica através de ações distintas:
Aulas de técnica de dança, laboratórios de criação gestual e audiovisual, leituras referentes ao tema proposto, pesquisa iconográfica (visualização de imagens, documentários, exposições, espetáculos), entre outras.
Os laboratórios de criação gestual consistem em experimentações corporais a partir de estímulos pré-determinados que objetivam a investigação/descoberta de gestos e estados corpóreos que dialoguem com o universo imagético e conceitual que o tema propõe.
Uma estratégia muito utilizada e aprofundada foi o jogo de velar e desvelar das partes do corpo realizado individualmente, em duplas e por último em trio. Neste jogo a principal regra seria esconder e revelar determinadas partes do corpo estipulando um ângulo fixo para visualização do mesmo.





Dentre os princípios utilizados por Hans Bellmer, na composição de suas bonecas, seja em esculturas ou gravuras, destaco aqui os “anagramas do corpo”

“Um anagrama (do grego ana = "voltar" ou "repetir" + graphein = "escrever") é uma espécie de jogo de palavras, resultando do rearranjo das letras de uma palavra ou frase para produzir outras palavras, utilizando todas as letras originais exatamente uma vez. Um exemplo conhecido é o nome da personagem Iracema, claro anagrama de América, no romance de José de Alencar.”
Acessado em 04/06/2013.

Os anagramas do corpo propostos por Bellmer determinam possibilidades de combinação entre as partes do corpo que diferem da representação do corpo humano como usualmente o conhecemos.
Assim, com o intuito de afastar a imagem da estrutura íntegra do corpo humano, foi sendo composto um “outro” corpo, a partir dos pedaços de três corpos se entrelaçando e imbricando suas partes, trazendo à tona, possibilidades de uma anatomia fantástica.

Nesta experiência, com o grupo, a escolha de um ponto de vista pré-determinado foi crucial para a visualização dessas metamorfoses de dois ou mais corpos em um. A visualização de outro plano acarretaria em um desvelamento dos artifícios que formam esse corpo ilusório.



“O corpo estranho se presta a todas as fantasias que suscitam a atração ou a repulsão. Ele pode ser idealizado como a expressão de uma beleza inacessível e/ou rejeitado como o símbolo que objetiva os sinais da repulsa. Provocando de uma maneira imaginária a possível vertigem da mais radical alteridade, ele cristaliza as frustrações e, simultaneamente, possibilita a aventura misteriosa dos sentidos”. (JEUDY, 2002, p.102)

Corpo Estranho - Grupo de pesquisa e composição coreográfica
Coordenação: Aline Teixeira
Intérpretes-criadores: Diego Carvalho, Mery Horta e Taísa Magno
Designer: Juliana Prado


Referências Bibliográficas
JEUDY, Henry-Pierre. O corpo como objeto de arte. São Paulo: Estação Liberdade, 2002.

Para o texto "O Estranho" de Freud;